O Ministério da Saúde prepara uma reformulação estrutural no custeio da saúde pública brasileira e pretende extinguir de forma definitiva a tabela de procedimentos do Sistema Único de Saúde (SUS), em vigor há quase três décadas. A estratégia para um eventual quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi detalhada pelo ministro da pasta e coordenador do plano de governo da campanha de reeleição, Alexandre Padilha, em entrevista concedida à jornalista Cláudia Collucci, da Folha de S.Paulo.
A mudança central substitui o pagamento individualizado por procedimento por um modelo focado no desfecho e na resolutividade do atendimento aos pacientes. Atualmente, cerca de 1.500 cirurgias e exames já deixaram de seguir a tabela tradicional e migraram para os parâmetros do programa Agora Tem Especialistas, cujos repasses são de três a quatro vezes superiores e variam conforme a realidade de cada região do país.
“É preciso enterrar esse modelo”, afirma Padilha sobre a remuneração fragmentada
Ao justificar a transição, Padilha criticou a lógica de remuneração que perdura desde os anos 2000 e enfatizou a necessidade de integrar toda a linha de cuidado do cidadão. “Vamos enterrar definitivamente a tabela SUS dos últimos 20 anos. Ela já não é parâmetro para cerca de 1.500 procedimentos cirúrgicos e exames. Os próximos quatro anos do governo Lula vão ficar marcados por enterrar esse mecanismo superado de financiamento”, declarou o ministro.
Padilha rebateu as frequentes cobranças de entidades hospitalares e gestores por simples reajustes lineares dos valores históricos. “Ele é antigo porque fragmenta o cuidado e paga por procedimento, quando é preciso pagar pelo resultado para o paciente. Tem gente que fala em reajustar a tabela. Está errado. Nós já reajustamos, reajustamos todo ano. Não basta reajustar; é preciso enterrar esse modelo”, enfatizou.
Para viabilizar a transformação, o programa Agora Tem Especialistas atua em duas frentes de financiamento: exige a contratação casada de consultas, exames e cirurgias com valores atualizados e viabiliza a negociação de dívidas ou concessão de créditos tributários a hospitais privados em troca de assistência. Segundo o titular da Saúde, essa última modalidade já formalizou R$ 1 bilhão em contratos neste ano, correspondendo à oferta de 1,2 milhão de procedimentos na rede suplementar
Painel Nacional das Filas do SUS e monitoramento digital até o fim do ano
Um dos principais desafios da gestão pública, a redução no tempo de espera por diagnósticos e intervenções, deve ganhar transparência nos próximos meses. Padilha assegurou que o Painel Nacional das Filas do SUS será entregue até o final deste ano, impulsionado pela aprovação de legislação no Congresso Nacional que tornou compulsório o envio de dados por estados e municípios:
“Teremos o painel. O Congresso aprovou a obrigatoriedade de estados e municípios apresentarem os dados, e com isso vamos ter o painel no final deste ano”, garantiu o ministro à Folha.
O ministro ressaltou que a gestão direta das marcações compete aos entes locais e apontou resistências na consolidação dos registros.”É preciso deixar claro que essas filas são dos municípios e dos estados, não do governo federal. A lei exige que eles passem informações que hoje não passam. O estado de São Paulo é um dos que não passam”, alertou.
Sobre o contingente total de brasileiros que aguardam atendimento, Padilha evitou antecipar projeções preliminares: “Quando eu mostrar o painel, todo mundo vai saber”. Paralelamente ao painel, o ministério desenvolve uma solução digital em parceria com hospitais federais universitários e redes municipais para permitir o agendamento e o rastreamento individual da posição na fila via celular.
Recorde em cirurgias eletivas, mutirões móveis e agilidade em diagnósticos
No balanço das ações operacionais, o ministro destacou o avanço na realização de cirurgias programadas pelo sistema público. Em 2025, o SUS registrou a marca recorde de quase 15 milhões de cirurgias eletivas, um crescimento de 42% em comparação a 2022, com estimativa de atingir 16 milhões de procedimentos ao término de 2026.
Para destravar gargalos específicos em exames de imagem e rastreio oncológico, o governo investiu na aquisição em larga escala de tomógrafos, aparelhos de ressonância magnética e aceleradores lineares para radioterapia, além do envio de unidades móveis especializadas.
Iniciado com unidades itinerantes, as carreatas de saúde devem fecham o ano com 150 veículos permanentes. As carretas já atenderam mais de 4.300 municípios, acumulando mais de 1 milhão de atendimentos com permanência média de 30 dias por região para zerar pendências em tomografia, saúde da mulher e cirurgia de catarata.
Outro marco foi o supercentro de telediagnóstico. Criado em parceria com o centro oncológico A.C.Camargo, o polo analisa amostras de biópsias de todo o território nacional, encurtando o prazo médio de laudos anatomopatológicos de sete meses para apenas sete dias.
Disputa eleitoral e alertas sobre corte de gastos na Saúde
Durante a entrevista, realizada no contexto do segundo turno das eleições presidenciais de 2026, Padilha contrapôs as diretrizes da gestão atual aos planos fiscais do adversário da oposição, Flávio Bolsonaro (PL). “Só a eleição do presidente Lula garante a proteção do orçamento crescente da Saúde. O plano de Flávio Bolsonaro prevê corte de R$ 250 bilhões, e não há como cortar isso sem atingir a Saúde, que é o maior Orçamento da União”, argumentou o ministro.
Por fim, Padilha apontou ainda que as emendas parlamentares provocam distorções orçamentárias na destinação dos recursos do setor, defendendo que sua aplicação seja vinculada obrigatoriamente a metas cirúrgicas e diagnósticas para conter filas. Por outro lado, ressaltou avanços como a ampliação orçamentária para medicamentos especializados, que saltou de R$ 13 bilhões para mais de R$ 27 bilhões. A nova medida possibilitou a cobertura de 160 novos fármacos, e o início do modelo de licitação com preços confidenciais que visam reduzir a judicialização da saúde pública.
O post Governo planeja o fim da tabela SUS, com modelo de remuneração por desfecho clínico na Saúde foi publicado primeiro em Diário de Goiás.







